Por: Frederico Fagundes
Tenho um amigo de Boa Vista do Buricá (RS) que veio morar em Cuiabá (MT). Ele nunca havia andando de avião, elevador ou escada rolante. Achou o máximo quando o levei para conhecer um estúdio de televisão. Isso foi em 2003. Tudo era novidade para o cara. Inclusive a noite.
Não noite noite. Noite de sair, bares, danceterias e afins. Segundo o mesmo, os finais de semana dele eram repletos de truco com os amigos e uns garrafões de vinho. Não conhecia boates e muito menos discotecas. Levei o Clóvis – chamaremos ele de Clóvis para mantermos o anonimato – numa boate de Cuiabá que, durante certo período, era a melhor da região. O nome não importa. Clóvis estava lá.
Bem vestido, goma no cabelo, sapato brilhando. Entrou como se fosse o dono do bordel. Peito estufado, olhar superior e um certo sorriso de glória estampado no rosto. Eis que, num momento de pura magia, se dirige ao bar, sedento por uma bebida.
Antes, dirige-se a mim e diz:
Hoje vou radicalizar…
Eu senti medo. Talvez mais curiosidade do que medo. O que seria o radical do radicalizar de Clóvis? O momento mais alucinante que ele passou na vida foi quando uma boiada estourou e invadiu a agência dos Correios em Boa Vista do Buricá. O que faria Clóvis, na boate, com goma no cabelo?
Ele foi até o bar, olhou feio para um playboy que esbarrou no seu ombro, virou-se até o barman e disse, com entonação e velocidade na medida:
- Me vê uma Fanta Uva.
Ele assim ele saiu, munido de tal bebida, orgulhoso. Não precisava de mais nada. A combinação perfeita para Clóvis era essa. Um refrigerante de frutas com música eletrônica.
Mas ele queria mais. Num breve momento de ousadia, ousou:
- Com limão e gelo.
Fanta Uva com limão e gelo. Esse era o Clovis. Gaudério, aqui limitou-se a bebida gaseificada de sabor doce com um toque de resfriada fruta cítrica. Nem parecia o cara que cresceu tomando água quente com mato.
Essa cidade grande transforma qualquer um em fresco. Maldita cidade grande.






